Já era a segunda vez que ia começar a viver. Da primeira, só ficaram boas recordações, mas ele sabia que não era perfeito. E nem perto disso chegava. Mas essa mania de esquecer não deixava ele ficar atento aos perigos de transformar sua nova chance em uma réplica da primeira. O amor era muito forte, e era estranho ver a si mesmo em outra pessoa, sem os defeitos tão pertinentes, sem a neurose tão à flor da pele e sem as confusões e apegos que já estava cansado de sentir.
Com o plano bolado na mente e a dor no coração, a cópia bem sucedida foi trancada em um quarto escuro. Surdo aos apelos mudos de sua criação, nada desviava seu alvo. E por muito tempo, foi assim que as madrugadas voltaram. Mas, no silêncio de sua clausura, a cópia era capaz de gerar tanta revolta e tanto rancor, que ele resolveu que deixaria-a livre.
Começar de novo.
E agora, o original se encontrava diante da grande decisão, que definiria o rumo da sua segunda chance, tão almejada. Seguir os passos na areia, ou se afastar e tomar o caminho desconhecido e temido? Mas o que o espelho mostra não difere da troca de olhares, de idéias e de amores. Olhando-se bem, a falsidade que o original agora aparenta é tão forte quanto a legitimidade da cópia.
E, nesse instante, ele percebe o momento em que se tornou o que é, que apesar de mal feito, era único.
Nunca tinha sido o original, nunca deveria ter reclamado pelo que reclamou ou falado quando falou. E nunca deveria ter cometido o erro de acreditar no que não existiu, nem jamais existirá.
sábado, 15 de dezembro de 2007
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